DPC – Diagnóstico e Intervenção na Clínica Psicopedagógica

Unidade III - Módulo 1

Júlia Eugênia Gonçalves

Imagem da disciplina

fonte: opousadeiro.blogspot.com

Boas Vindas:

Caro (a) Aluno (a),


Nesta Unidade vamos analisar a atitude do psicopedagogo em relação aos dados coletados. O que fazer com eles? O que valorizar? O que é relevante ou irrelevante? A partir das escolhas feitas vão depender a continuidade do processo diagnóstico, como veremos. Siga-me!


Apresentação:

Como em todo processo diagnóstico que acontece nas mais diversas áreas, a atitude investigativa deve conduzir a ação profissional. Em Psicopedagogia não poderia ser diferente e neste módulo vamos aprender um pouco mais a respeito de como o psicopedagogo deve atuar seguindo os procedimentos científicos, analisando os dados coletados, levantando hipóteses que lhe permitam decidir pelos instrumentos a serem aplicados no seguimento deste processo.


Veremos como devemos construir os eixos de análise diagnóstica e de que material dispomos para comprovar as hipóteses de trabalho e para iniciarmos a segunda etapa do diagnóstico.


Objetivo:

Esperamos que, ao término deste módulo, o aluno seja capaz de:

Re-cordar

imagem novelo coração

fonte: www.flickr.com

É Alícia Fernández quem nos chama a atenção para o fato de que em espanhol existe um verbo - cordar – que em português não possui um significado exatamente idêntico. Ele expressa, naquela língua, a ação de tomar um fio e fazer um novelo. Pensemos então o que acontece se um novelo cai ao chão e se desenrola. Por mais que a pessoa tente, será que conseguirá “cordá-lo” colocando os fios exatamente no mesmo lugar e na mesma posição em que se encontravam? Claro que não!

Em português temos o verbo recordar associado à memorização. Alícia relaciona o “cordar” espanhol com o “recordar“ em português e chega a uma metáfora muito interessante. Em sua opinião, ambos os verbos de ambas as línguas se relacionam numa significação psicopedagógica: o ser humano não tem memória no sentido do verbo “cordar”. Jamais conseguimos reproduzir os eventos que nos acontecem ou que presenciamos da mesma maneira, assim como nos é impossível colocar o fio do novelo no mesmo lugar em que se encontrava antes de desenrolar. Só podemos “recordar”, ou seja, nos lembramos daquilo que foi significativo, que nos marcou positiva ou negativamente, que ficou no coração. Já conversamos a este respeito nas unidades anteriores e fixamos aqui esta informação esperando que tenha sido significativa e permita que você a recorde posteriormente.

Depois da entrevista inicial e da aplicação das sessões baseadas no lúdico descritas na Unidade 2, cabe ao psicopedagogo construir os eixos de análise diagnóstica que serão úteis para facilitar a formulação das hipóteses iniciais com as quais vai trabalhar. Isto lhe permitirá dar continuidade aos procedimentos avaliativos, pois todo diagnóstico sempre está em busca de uma verdade, mas sempre se encontra, ao mesmo tempo, com a possibilidade do erro, tal como a afirmação abaixo enuncia:

CITAÇÃO:

“... existe um conhecimento genuíno quando o diagnóstico corresponde à doença (condição de verdade ) e quando essa correspondência não é simplesmente fruto de uma mera coincidência ou de um golpe de sorte, mas é decorrente da existência real dfe razões objetivas que sustentem o diagnóstico ( condição da justificativa). Amoretti.

Eixos de Análise Diagnóstica:

Ao terminar a etapa destinada à coleta de dados, o psicopedagogo deverá compor os eixos de análise diagnóstica do caso em estudo. Para isso organizará as informações relevantes da história de vida do sujeito, em duas linhas que se cruzam no momento do diagnóstico:

A partir deste trabalho terá uma visão sintética dos dados coletados durante a primeira fase do processo e poderá, com mais segurança, eleger as hipóteses iniciais que conduzirão a definição dos instrumentos que irá utilizar para sua verificação e possível comprovação.

Os eixos de análise diagnóstica são, pois, imprescindíveis de serem construídos logo após o término da coleta de dados e sua elaboração é muito simples:

imagem eixos de análise diagnóstica

fonte: construção do autor

Conforme demonstra a imagem acima, na linha vertical o profissional deverá registrar as informações relevantesAquelas que realmente importam, que têm relação com a queixa apresentada ou que se relacionam com os problemas vivenciados. na história do sujeito, desde o seu nascimento até o momento presente. Como o processo histórico se projeta para o futuro, o eixo vertical deve terminar com uma seta indicando esta condição prospectiva.

Na linha horizontal serão registrados os acontecimentos relevantes no “aqui e agora”, ou seja, no momento presente. Este eixo é a-histórico. Não termina com seta porque o presente é sempre estanque, reduzido, limitado no tempo.

Este trabalho é de suma importância para o psicopedagogo porque lhe permite selecionar as informações relevantes obtidas na coleta de dados, separando-as das irrelevantes e também lhe possibilita uma visão geral da situação de uma maneira mais global e visual.

Veja o exemplo de eixo de análise diagnóstica construído a partir de uma situação fictícia:

imagem eixos de análise diagnóstica exemplo

Sistema de hipóteses e aplicação de instrumentos de análise psicopedagógica

Com a construção dos eixos o psicopedagogo poderá formular as hipóteses iniciais do caso em estudo. Hipóteses são sempre formuladas sob a forma de perguntas e é importante lembrar que as mais importantes são aquelas que fazemos a nós mesmos, porque não temos as respostas.

No exemplo apresentado acima, o que se poderia pensar neste sentido?

NOTA:

Observem que estas questões estão relacionadas com os conhecimentos teóricos adquiridos nas disciplinas já cursadas. Sem teoria não há prática que se sustente! Se não tenho domínio teórico minhas hipóteses serão fracas e inconsistentes e poderão me conduzir ao erro.

As hipóteses iniciais são apenas isso: perguntas que levam o psicopedagogo a pensar. Porém, precisam conduzir para além disso : precisam indicar os caminhos a serem seguidos daí para a frente. Por isso, neste momento, é de fundamental importância lembrar-se das estruturas de aprendizagem descritas por Sara Pain:

Organismo, ou estrutura física, biológica

imagem organismo

fonte: www.fotosdahora.com.br

Corpo ou estrutura imaginária

imagem corpo

fonte: retalhosdeexistencia.wordpress.com

Estrutura cognitiva ou Conhecimento

imagem software do cérebro

fonte: ensinar.wordpress.com

Desejo ou estrutura dramática

imagem estrutura desejante

fonte: oficinasociologica.blogspot.com

Se continuarmos relacionando tais conceitos com o exemplo do menino F acima exposto, podemos concluir que a estrutura corporal está prejudicada, assim como a estrutura desejante. Pela coleta de dados não temos elementos para inferir que haja problemas de natureza cognitiva ou orgânica.

Por que a estrutura corporal estaria afetada?

A leitura e a escrita são construídas pelo corpo. Pierre Weill já nos advertia: “O Corpo Fala”. Na acepção direta do título de um de seus livros mais famosos, ele enunciava algo que a as neurociências vieram a comprovar na atualidade: a linguagem, em suas expressões faladas e escritas não se relacionam com o organismo, mas com a construção subjetiva que passa pelo conhecimento do corpoAquisição de conhecimentos a respeito dos órgãos e do funcionamento do próprio corpo. pela construção de uma imagem corporalUm corpo que é capaz de falar, ler e escrever. e pela construção do esquema corporalOrganização do corpo em relação ao espaço e aos outros..

DICA:

Releia o material da disciplina Dificuldades de Aprendizagem, unidade 1, módulo 1: a fim de atualizar seus conhecimentos a respeito de tais referenciais teóricos.

Se o menino F está com dificuldades de aprender a ler e a escrever, provavelmente sua estrutura corporal está afetada.

Por que a estrutura desejante estaria afetada ?

Porque existe um “drama “familiar associado à sua origem, ao processo de adoção, ou seja elementos que levam F a centrar-se em si mesmo, em seus próprios problemas, em sua subjetividade em detrimento da aprendizagem formal, objetiva, dos conteúdos escolares. Dizendo de outra maneira: sua realidade íntima, subjetiva, o impede de aprender aquilo que é objetivo: leitura e escrita possuem regras, normas, etc.

Com a formulação das hipóteses iniciais, que poderão ou não comprovadas pelo diagnóstico psicopedagógico, o profissional tem a opção de escolher quais os instrumentos ou testes mais apropriados a cada caso, dentre a variedade que possui `a sua disposição .

Instrumentos de avaliação no modelo clínico

O Código de Ética do Psicopedagogo que você já conhece faz referência explítica ao uso de procedimentos (e instrumentos) próprios da Psicopedagogia, ou seja, o profissional psicopedagogo que não tenha formação em Psicologia precisa utilizar apenas instrumentos psicopedagógicos no processo diagnóstico e deve sempre estar atento às questões de natureza ética, tal como salienta Testino:

CITAÇÃO:

“A responsabilidade do diagnóstico, da solução do quebra-cabeça, é moral e algo que não se pode eximir. Cometer um erro é algo sempre injustificável do ponto de vista ético”.

Este assunto é de extrema importância para os nossos estudos e será abordado de maneira aprofundada no próximo módulo desta unidade.

Síntese: Neste módulo você aprendeu que:

Leituras

Conclusão

Neste módulo demos seguimento aos estudos sobre a estrutura e execução do diagnóstico psicopedagógico no âmbito da atuação clínica, abordando mais diretamente a segunda etapa do processo, qual seja a construção dos eixos de análise diagnóstica, a formulação das hipóteses iniciais de trabalho e a aplicação dos instrumentos que poderão comprová-las ou refutá-las.

No próximo módulo daremos continuidade aos assuntos aqui tratados, iniciando a apresentação dos instrumentos diagnósticos próprios da Psicopedagogia, disponíveis no mercado.

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